sábado, 19 de janeiro de 2013

fantasmas de maputo I



algures, na avenina josina machel, encontramos um mausoléu impecável e improvável: o louis trichardttrek gedenktuin. trata-se de um monumento erguido em 1964 por iniciativa sul-africana e inaugurado em 1965 com a presença do ministro da educação sul-africano, j. de klerk. este espaço, bem cuidado, onde placas de mármore com inscrições combinam-se a relevos feitos em pedra e à calçada portuguesa, tudo cercado por um pequeno jardim, constitui uma homenagem ao grupo de voorktrekkers que, chefiado por louis trichardttrek e johannes janse van rensburg, partiram da colônia do cabo em 1835, reagindo ao colonialismo britânico. três anos depois, os remanescentes do grupo, chegaram ao então forte de lourenço marques, onde se estabeleceram. em quinze meses, louis trichardt, sua esposa martha e todo o grupo de sobreviventes formado por 18 pessoas, morreram de malária. também morreram os bois que os levaram em suas carroças. todos foram enterrados na região do forte.
o monumento está próximo à baixa de maputo, onde prolifera um rico comércio, entre lojas e vendedores de rua. calçadas e ruas estão sempre lotados de pessoas das mais diversas origens e religiões. no meio desta correria, desta multidão que se espalha por ruas e calçadas esburacadas e cheias de lixo, está o mausoléu, estranhamente limpo, impoluto. se diz que mesmo nos piores tempos da guerra, e quando as relações entre o estado moçambicano e a áfrica do sul do apartheid eram mínimas, o governo permitia que viessem sul-africanos brancos para cuidar, regar e limpar o jardim. a relação da cidade com este espaço é de total exterioridade e estranhamento.